Odisseia de Nolan e o Fim da Civilização

 


Digo sempre aos meus alunos que quando assistimos um filme futurista ou histórico eles não falam de outros tempos, senão do tempo em que são feitos.

A partir dessa premissa, a Odisseia de Christopher Nolan, conceituado diretor de cinema norteamericano, fala do hoje, ainda que escolha narrar uma das histórias mais antigas já registrada.

Apesar de um caminho bem conhecido, o recrutamento de Odisseu/Ulisses por Agamenon para uma guerra de dez anos contra Troia, o estratagema proposto por ele (Odisseu) para vencer a guerra, o retorno conturbado até Ítaca, seu reino que corre perigo com sua ausência, a perda de seus marujos nesse retorno e o seu ressurgimento como um velho mendigo, as interpretações de cada um desses eventos é que faz a diferença entre as inúmeras leituras possíveis da Odisseia de Homero.

A versão de mesmo nome sob a direção de Andrey Konchalosvky (1997), uma adaptação para a televisão na forma de minissérie, com Armand Assanti (Odisseu), Greta Scacchi (Penélope) e Isabela Rossellini (Atena) apresentava um Odisseu astuto e curioso, pronto para enfrentar os perigos à sua frente para angariar conhecimento e glória. Bastante fiel ao texto original, os fatos são narrados cronologicamente e demonstram que a questão central era arrogância de Ulisses ao desmerecer o papel dos deuses sobre suas conquistas e vitórias. Após a derrota dos troianos com a estratégia do cavalo idealizado por ele, Ulisses vai até a praia e olha pro mar profundo (Poseidon) dizendo que ele não precisa dos deuses pois tem sua razão para guiá-lo (que no livro é presente da deusa Atena, sua madrinha). Ou seja, o filme dos anos 90 coloca em xeque os limites da racionalidade, portanto da ciência, de sua época. Algo bastante recorrente nos filmes e histórias desse período e que marca uma virada pós-moderna para alguns autores.

Para Nolan em 2026 a questão é outra. A narrativa não cronológica inicia com um arauto contando os feitos de Ulisses (Matt Damon) num banquete em Ítaca, sendo ouvido por Telêmaco (Tom Holland) e Penélope (Anne Hathaway). A exuberância imagética é incrível, já que o filme foi todo filmado com a tecnologia IMax e a escolha de paisagens e recursos técnicos é fora de qualquer crítica.

O arauto canta as vitórias de Odisseu e o espectador vê as imagens correspondentes a eles de modo impactante. Em certo ponto, o narrador passa a ser o próprio Odisseu que se encontra numa praia com Calypso (Charlize Teron, a sedutora ninfa do mar que aprisiona Odisseu por 8 anos). Ela lhe oferece a flor de lótus, que ele come avidamente. Na história original, tal flor que simboliza o esquecimento (alethéa) é dada a Ulisses pelos lotófagos (habitantes de uma ilha do norte da África), mas faz todo sentido que Nolan atribua essa função a Calypso, já que a flor também está associada ao genital feminino. Konchalovsky deu essa atribuição a Circe (Bernadette Peters) na série de TV.

Odisseu começa a lembrar-se de seus encontros com a deusa Atena (Zendaya) e das cenas da guerra de Troia. Diz a Calypso que quer se lembrar de tudo, de quem ele é. Ela diz a ele que não coma mais a flor para ajudá-lo a se lembrar.

Ele começa a se recordar que não queria ir para a guerra, mas que era necessário, pois do contrário Agamenon levaria seu filho recém-nascido, já que há uma lei a respeito disso que ele tem que seguir. Que a guerra durou 10 enfadonhos anos e que ele não gostava de se sentir dominado e obrigado a reverenciar Agamenon (Benny Safdie, que somente aparece em sua armadura reluzente). Lembra que foi uma guerra em que ele não acreditava e que tudo que queria era voltar para sua Ítaca e sua Penélope.

Importante dizer que no livro de Homero essa não é exatamente uma questão. Embora de fato relutasse em ir para Troia e se ausentar tanto tempo de seu reino, Ulisses queria inscrever seu nome na história e poder ouvir seu nome cantado pelos arautos, já que esse era o propósito de um herói para o mundo grego. Sobre isto ler minha tese de doutorado “De Ulisses a Frankenstein ou do confronto com a natureza exterior à dominação da natureza interior” (2015), isto é, Ulisses caracteriza-se pelo uso da astúcia diante de uma natureza divinamente superior e mantém uma curiosidade em relação ao mundo e aos povos e criaturas desconhecidas. Tanto no texto original quanto na versão televisiva, Ulisses era avisado dos perigos à sua frente, mas decidia enfrentá-los. Essa era sua hybris, sua desmedida.

Nolan descaracteriza essa curiosidade, por exemplo, ao não dar destaque para a cena das sereias já que Ulisses decide tapar o ouvido dos marujos com cera e solicita que seja amarrado no mastro do navio sem nenhuma explicação do porquê. Exatamente por isso ele precisa colocar a cena do encontro da esquadra de Odisseu com os Lestrigões (gigantes canibais com armaduras reluzentes) para demonstrar que os marujos de Odisseu não confiam mais em suas escolhas.

Ocorre que a explicação neomarxista da Escola de Frankfurt para essa questão é a de que Ulisses se desloca do grupo na cena anterior, a das sereias, quando não permite aos marujos serem seduzidos pelo canto das ninfas, mas reserva-o apenas para si. Adorno e Horkheimer vão dizer em Dialética do Esclarecimento (1947/1985) que este é o protótipo do pensamento burguês que justifica para si o gozo do capital, pois imagina correr todos os riscos.

Enquanto isto se passa na cabeça de Odisseu, temos o dilema de Telêmaco entre tornar-se rei ou partir em busca de seu pai (a Telemaquia). No livro de Homero, essa jornada de Telêmaco a Pilos e Esparta é inspirada por Atena. O que vemos nessa narrativa é um Menelau (Jon Bernthal) desgostoso, violento e revoltado com o desfecho da guerra e casado com uma Helena (Lupita Nyong´o) negra e marcada por profundas cicatrizes do lado esquerdo do rosto. Quando Telêmaco pergunta por Agamenon, Menelau lhe diz que foi assassinado por sua mulher (Clitemnestra, gêmea de Helena) e seu filho.

Odisseu finalmente se recorda de tudo, sua esposa Penélope, seu filho Telêmaco, sua Ítaca e, principalmente, os episódios que queria esquecer, as cenas de guerra, os encontros com as criaturas e deuses e a perda de seus marujos. No texto de Nolan, a melancolia de Ulisses não se dá pelo deslocamento dele em relação a seus marujos e os homens comuns, mas pelo próprio uso da astúcia, sua principal arma. Odisseu se arrepende de ter feito parte de uma guerra sem sentido, de ter saqueado Troia, das mortes causadas, a flechada desnecessária ao Polifemo (Bill Irwin), dos sacrifícios, das mortes dos marujos para que ele se salvasse e da criação do cavalo de madeira que permitiu a vitória. É como se tudo não tivesse sentido. O cavalo é queimado no templo de Atena. A menina sacrificada no templo passa a ser vista por ele como a própria Atena (Zendaya). Essa é a causa de sua melancolia que faz com que tudo perca o sentido, a astúcia, que outrora foi o presente da deusa para ela (em Homero), agora é o motivo de sua vergonha, pois aponta para um modo de ser no mundo que desrespeita as leis de Zeus.

Mas o que essas leis determinam? Elas trazem para o mundo grego a chamada civilidade. Basicamente, trata-se da regra de ouro (recorrente em muitas culturas): “Não faça ao outro o que não quer que ele faça a você”. Pode parecer pouca coisa, mas é isto que obriga a qualquer rei ou povoado em receber bem os estrangeiros, já que eles podem ser deuses disfarçados. Obriga a reciprocidade, uma forma de amor. Obriga também a não atacar alguém sem motivo justo, não ser violento além da medida.

É por isso que, a vingança de Odisseu contra os pretendentes de Penélope tem de ser feita por ele. Para que ninguém possa acusar Telêmaco de ser violento com seus convidados. Ainda que esses convidados abusem de sua hospitalidade, provoquem seu enfurecimento esperando revide, assediem sua mãe e tratem covardemente os desvalidos, Argos o cachorro de Ulisses e Eumeu (John Leguizamo), o fiel criado de Odisseu.

O arrependimento de Odisseu se dá ao contemplar o desmoronar dessa civilização, da honra, do respeito nas relações, uma forma de desumanização. Por isso o que ele deseja é retornar para Ítaca. Uma Ítaca que simboliza esses valores que se perderam.

Telêmaco e Penélope ficam sabendo de rumores sobre um povo do mar que poderia causar o fim do mundo grego. Na conversa entre Odisseu e Penélope ele lhe diz que eles são o povo do mar. Por isso o filme termina com Ulisses e Penélope partindo de navio para o ocidente com uma missão de levar uma mensagem de respeito às leis esquecidas.

Se no fim dos anos 90 a questão proposta pela série de Konchalovsky era uma crítica ao uso demasiado da razão e da tecnologia assim como uma crítica social ao capitalismo. Agora, em 2026, Nolan nos aponta uma reflexão sobre a decadência moral, sobre a importância de manter valores humanos, de aceitar o que é estrangeiro e diferente, de não seguir líderes que não defendam causas justas e de lembrar da importância do caráter. Ulisses retorna porque prometeu entregar o palito de Sinon (Elliot Page) para marcar a vergonha de Antinoo (Robert Pattinson) que covardemente trocou seu lugar para permanecer em Ítaca.

Para Nolan é isto que falta na sociedade de hoje. Vergonha. Esta é a ruína da nossa civilização, símbolo da nossa decadência.

Num tempo de pós-verdade, de guerras de narrativas, de corrupção generalizada, de xenofobia, de recrudescimento de posicionamentos fascistas antes imaginados extintos, de pregações e guerras religiosas, de invasões injustificáveis a países soberanos, da condescendência com desobediência das leis, não é difícil entender o que Nolan propõe. Talvez voltar ao berço da civilização possa mostrar a importância dela e de sua manutenção aos jovens do ocidente. Àqueles que ficarão quando não estivermos mais aqui.

Por isso Helena, o símbolo e fundação do mundo grego (os chamados helênicos), tem o rosto marcado por cicatrizes. Marcas profundas sofridas pelos imigrantes, pelos negros, pelos povos oprimidos, pelo sofrimento dos estrangeiros e por aqueles que são mantidos pelo jugo dos poderosos. É para lembrar-nos disso que Ulisses continua sua jornada para o ocidente.

Agora, em 2026, somos todos filhos de uma Helena negra, marcada pelas feridas provocadas por nós mesmos, profundamente em conflito com nossas atitudes e posicionamentos, em guerra fraticida com aqueles que supomos não conhecer. Caberá a nós e aos nossos filhos reconstruir nossa face. curar nossas feridas. 

Naveguemos!


Referências

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max – Dialética do Esclarecimento, São Paulo, Zahar, 1947/1985

GAFFO, Leandro – De Ulisses a Frankenstein ou do confronto com a natureza exterior à dominação da natureza interior, Globus, 2015

KONCHALOVSKY, Andrey – A Odisseia, NBC, 1997

NOLAN, Christopher – Odisseia, disponível apenas nos cinemas, 2026


 

 

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